segunda-feira, 4 de abril de 2011

Brilho eterno de um quarto sem lembranças

"Eu olhei para o quarto. Não haviam mais quadros na parede, apenas a sombra de onde um dia eles habitaram. Os livros estavam encaixotados, sozinhos. Suas paginas deveriam estar já grudadas. A estante, vazia, muda como nunca estivera antes. O armário, caindo com os cupins que a muito tempo já me incomodavam. A junta esquerda da parede com uma pequena rachadura.

Entrei.

As quinas eram familiares, tanto que conseguiria andar ali no escuro, sem esforço, como fazia a noite. Não gostava de acender a luz.
Fazia tempo que ninguém dormia naquela cama. A cama que já presenciou muitas risadas, muitos choros, muitos telefonemas, e até alguns segredos. O colchão nu estava reto, sem indicio de amassados.

Sentei.

Respirei fundo. O cheiro era o mesmo, apesar de toda a velhice do lugar. Um pouco de pinho sol, um pouco de desinfetante e um pouco de mim.
Minha mãe gritou da cozinha que o almoço estava pronto. Fechei a porta e arredei a cama para bloqueá-la, como nos velhos tempos, quando não haviam chaves para os meus segredos, apenas bloqueios psicológicos.

Deitei.

Fechei os olhos.

O lugar estava com vida novamente. A estante limpa, cheia de livros de ficção, coloridos, organizados por tamanhos e coleções. A escrivaninha, cheia de apostilas do cursinho, alguns papéis jogados e muitas canetas de ponta fina rolando. O tapete amarelo meio embolado e o mural com alguns ingressos de cinema, memorandos, o horário da natação e o último exame de sangue, me lembrando que deveria parar de comer carne vermelha.  O abajur apontado pra cima. A miniatura do Mike Wazowski me encarava, ao lado da coleção de conchas. A cadeira, ocupada.

Você também estava ali.

A mesma camiseta, o mesmo sorriso, a mesma tatuagem. Estava sentado na cadeira. Nos seus olhos, um convite para um beijo. No toque, desejo subjetivo.

Sorri.

Você me puxa e me coloca no seu colo. Diz que não vai me largar nunca mais. Morde a minha orelha numa tentativa muda de me agradar, e ao mesmo tempo, provocar.
Nós caímos naquele mesmo colchão. Apenas por brincadeira. Apenas para estarmos juntos.
A mesma voz que me chamava agora nos chamou para o almoço.

Me chamou para o almoço.

Irreal.

O quarto apenas me lembrava das fantasias que eu tive ali, não realmente do que aconteceu. Tinha o seu cheiro, o seu sorriso, o seu azul escuro. Por que você estava lá comigo, sem nunca ter estado.

É, estranho não seria se eu não me apaixonasse por você... Estranho seria se eu te esquecesse."