segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Alivio


Sei lá... é que por algumas horas, com você, eu me senti livre para ser quem eu realmente sou. Me senti bem o bastante para descartar a frieza e a indiferença e simplesmente mostrar que sinto, que gosto de sentir, e estou bem com isso. Me senti bem para sorrir, rir, chorar, confessar coisas que me incomodavam. Me senti confortável para dizer “Ei, essa sou eu, com todos os meus problemas incrustados”, e me senti melhor ainda quando percebi que meus problemas não te assustavam, que minha emotividade não te pôs pra correr, nem minhas sessões de terapia te fizeram achar que eu era uma louca. Você me fez bem. Pode ser que eu nunca mais te veja, mas, independente do que o destino me reserva, por uma noite eu esqueci do mundo, e simplesmente fiquei bem.

E foi um alivio. Como uma boa noite de sono depois de uma semana sem dormir. 

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Garota do cabelo azul

Ela abriu os olhos pela manhã, esperando que aquele dia demorasse um pouco mais para começar. Mas ele veio à tona, quando o sono foi embora. Olhou para o lado, mas ali só havia a alma dele, e não seu corpo, dentro de um ronco leve. Se levantou e caminhou lentamente até o banheiro. A boca ainda tinha o gosto dela, e o corpo, as marcas dela, e a mente, o rosto. Vestiu a camisa masculina que estava pendurada no banheiro, e ela lhe caiu grande, como um vestido. Como uma manhã pós-sexo. Lavou o rosto, deixando a água pingar nos cabelos descoloridos e na roupa ultrajante. Molhou o tapete. A noite anterior lhe atormentava. Caminhou até a cozinha e encheu uma xícara de café, sem açúcar e com dois pingados de whisky, levando-a para a sacada e acendendo um cigarro. A manhã estava suja de neblina, e a pequena cidade de tijolos parecia uma cidade fantasma. O jornaleiro passava, como nos anos 50, deixando o jornal com cheiro de novo no solado das portas, enquanto apitava aquele apito sem timbre, sem comoção. Uma garota passeava com o cachorro lá embaixo. Ela fechou os olhos.

Beijo, gosto, suor. Sem respirar. Lembrava da noite anterior como lembrava dos traços que se inclinavam no rosto dela. A mecha azul cacheada saindo dos cabelos pretos como petróleo, roçando lentamente no seu rosto, num simples afago. O sussurro, o gemido, a loucura da dúvida. Quem queria o que? Quem não queria? Quem ela queria? A pequena garota dos cabelos azuis ou o homem que, por tantas noites, a acompanhou? Se a garota não queria, então o que queria? Qual foi a motivação para o momento de loucura imposta as duas na noite anterior? E ele, onde estaria, além de morto em sua cama, e vivo na cama daquela que não lhe dá valor?

Ela teve vontade de pegar o telefone e ligar para acordá-la, mas o relógio avisava que, naquela hora, só haviam 3 pessoas acordadas na cidade. Ela, o jornaleiro e a garota do cachorro. Queria acordá-la cantando, dizendo que sentia falta do toque, mas que não sabia o que ele significava. Queria perguntar o que ela queria, pra saber se as coisas estavam mutuas ou desregradas. Queria colocar o celular no viva-voz e tirar o timbre do violão, pra colocá-lo dentro da outra, que ainda sonolenta, ia rir do romantismo exacerbado. A única romântica acordada, só por uma manhã fria, só por uma ilusão.

Por que quando a linha fosse cortada, ela ia caminhar até o quarto, abraçar seu fantasma e tentar dormir de novo, para que mais tarde naquela manhã tudo fosse esquecido, e a garota de cabelo azul fosse só a ponta da folha de um sonho que ela não continuou a ler.

domingo, 21 de agosto de 2011

O meio

Uma noite. Uma noite sem exagero ok? Não se apaixone. Talvez nós não devêssemos fazer isso.

Ok. Mas aqui está confortável. Tá vendo, o dia está raiando. Aqui está bom, fazia tempo que eu não me sentia bem, assim.(É, só me abrace.Eu podia passar mais três dias inteiros aqui, dentro desse abraço. É, por que é sincero.) Eu sei, não esperar nada. Vou ficar calada.

Não é calar, é não ter expectativa.

Difícil não ter expectativa.

Não tenha.

Mas quando você sair por aquela porta eu vou pensar “E se”.

E se o que?

(E se eu segurar o seu braço e disser "fica", você fica? Se eu segurar tua nuca e disser "beija", você beija? Não, não posso dizer isso.)

O que te faz querer me beijar?

Você me faz querer te beijar.

O que é um beijo pra você?

Um beijo é só um beijo.

É o meio, eu estou entre o beijo e o arrependimento.

Eu estou de um lado, você está do outro.

Então, por que você não me beija?

Por que o meio não é o bastante.

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

GPS

Hoje o cheiro de grama cortada tá invadindo a casa, pela janela escancarada. A lua tá linda, o calor tá insuportável, mas não tão insuportável quanto essa sensação. Eu nunca achei que ia sentir falta de um abraço, mas ai está. O apartamento nunca pareceu tão vazio, tão silencioso, tão inabitável. Parece que ele respira por companhia, assim como eu.

Não sei o que aconteceu comigo, com a gente, mas eu sinto falta de respirar em conjunto. Não é uma falta especifica, não é alguém especifico. É alguém. Tantas pessoas mudaram de opinião sobre mim que já não sei mais quem sou. Não consigo lembrar da última vez que deitei sabendo que teria um SMS de bom dia no meu celular, quando o despertador tocasse. Eu não consigo mais ficar sem esses beijos de despedida, sem aqueles domingos no parque. Eu estou sozinha, e isso é uma droga.

Nunca pensei que sentiria falta dessas coisas bobas. Coisas que menosprezei por tanto tempo, mas estar sozinha me fez pensar. Não quero mais essa futilidade, essa poligamia obrigada. Quem eu estava tentando enganar? Eu preciso de um sorriso que diga “Eu te amo”. Só. Um sorriso. É demais pedir um sorriso? EU já dei tantos sorrisos pra quem não merecia. Eu não mereço, mas sorria pra mim?

A vida me mostrou que é sim, possível, ser feliz sozinha. O negócio é que eu não quero ficar sozinha. Eu não quero ficar esperando uma ligação que não vai acontecer. Não quero ficar sentada no chão olhando fotos de um passado que não vai se repetir. Não quero mais sentir uma falta irreal de alguém que não lembra o meu nome. Nunca imaginei que pudesse me sentir assim, com nomes travados na garganta. Eu quero esquecer o passado, quero rasgar as fotos. Quero novidade, quero um futuro. Por que parece tão difícil? Tão impossível um futuro de abraço, beijo, e bom dias animados? Queria tanto mudar de idéia e ir viver minha vida.

Dizem que quanto mais você procura por amor, menos você acha. Mas eu acho que esse amor, que deveria me achar sem a minha procura, perdeu o GPS.

domingo, 14 de agosto de 2011

Ilusão, Revolta e Sazonalidade

Eu achei que estivesse sozinha. Ok, não sozinha, mas que não existissem muitos como eu. Pessoas que acreditam no melhor, que preferem se enganar, que amam. Bom, ai está uma impressão errada que eu tive do mundo. Existem muitos como eu. O negócio é que esses muitos não duram mais de 20 anos, 25 no máximo. Vem a ilusão, enfia uma faca no peito da gente,e o otimismo cai morto, aos pés dos que o carregavam

Sei, é uma droga pensar que as pessoas deixam de ser felizes por causa de seus iguais, mas eu nunca disse que a vida era justa. Uma verdade pra você estampar na testa: SE APAIXONAR É UMA DROGA. É uma droga quando se está longe, é uma droga quando acaba, é uma droga quando um dos dois mente. É uma verdadeira droga, uma merda, um poço de angustia e perdição, é um maço inteiro de cigarro, é um garrafa de tequila. Se apaixonar é um inferno, uma crença indesejável, um papelão, uma pagação de mico, um coice no estomago. Ninguém quer se apaixonar, tá todo mundo criando barreiras invisíveis em volta desses corações frágeis que mamãe criou. Mas meu querido, eu sinto muito.

VOCÊ VAI SE APAIXONAR. É um questão emocional, hormonal, espiritual, sazonal, temporal, sei lá o que, mas você vai. Você vai andar de mãos dadas no parque, vai deixar bilhetinho apaixonado na porta da geladeira, vai fazer jantar de dia dos namorados. Vai fazer carinho enquanto vê filme, vai tomar banho junto (se tiver sorte), vai dormir agarradinho. É a vida. Até gente feia encontra gente feia e ama uma vez na vida – por que se você acha que gente feia não ama, vai tomar no cu, por que hoje eu não to pra brincadeira. E mesmo que o seu amor não tenha tudo isso, ele vai acontecer. Amor não correspondido, mal fadado, inquestionável, traiçoeiro e sei lá mais o que. Você vai querer se matar, vai sentir ódio até da folha que caiu da árvore no inverno, por que a maldita é tão bonita e vai te fazer lembrar que você queria passar a primavera com ele/ela, só pra ver tudo nascer de novo.

Mas quer saber? Vale a pena. Vale a pena a sensação de, por alguns segundos, se sentir feliz por que aquela pessoa te deu um oi no MSN, te deu um sorriso na rua, te mandou um sms. Vale a pena escutar uma música que te lembra a pessoa e, mesmo que você não tenha experimentado estar com essa pessoa, saber que enquanto a música toca e você pensa nela, alguma coisa no fundo do seu peito acordou, levantou e deu olá. Você precisa desse olá. Amor completa, amor engana, amor. Bom, amor é amor, sazonal ou não, hormonal ou não. E eu tenho dó de quem morre sem sentir isso, por que é completo. Mesmo que por um segundo, você se sente completo. E um segundo inteiro é melhor que uma vida inteira aos pedaços.

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Saudade


Eu abri a porta e seus olhos castanhos me encararam, com uma simples indagação: “O que está acontecendo?”. Eu realmente queria responder, mas as palavras se recusavam a repuxar as cordas vocais, e os soluços começavam novamente. Nada, não estou fazendo nada. Não estou dormindo direito, comendo direito, estudando direito, vivendo direito. É isso, o que não estou fazendo, por que ele está longe, e não é meu. Ela me envolveu em seus braços: “É saudade?”

É, é sempre a saudade.

domingo, 7 de agosto de 2011

Tá Foda

Fala comigo. Fala comigo dessa tua dúvida enrustida, dessas tuas palavras tortas, desses teus toques escondidos. Fala comigo, pra ver se a gente se entende, pra ver se dá pra frente, essa história de não quero ficar contigo. Vem, senta aqui do meu lado, eu quero te dizer um negócio. Não sei o que quero, mesmo. Tem um monte de gente no mundo, e ultimamente eu to meio nada com nada, tudo com tudo, com todo mundo. Eu to atirando pra matar, eu to cansada. To cansada de não amar ninguém e ao mesmo tempo amar todo mundo. Eu quero alguém pra mim, pra me fazer feliz, e se deixar ser junto. Eu sei, ta foda, essa secretária eletrônica sempre vazia, essa campainha que chora mas não toca. Ta foda rodar nessa cidade luz, sem destino, pelos bares e praças, pelas esquinas, procurando não sei o que, não sei pra quem, nem pra onde. Eu tenho vontade de ti. Desse aperto todo que é ta junto... mas não sei se é tu quem eu quero. Ta foda, simplesmente.

Me da um shot disso ai e fala comigo. Fala comigo pra ver se a gente junta esse bocado de frustração pra construir um pouco de amor. Só por hoje. Ou por outras noites mais.