"Eu olhei para o quarto. Não haviam mais quadros na parede, apenas a sombra de onde um dia eles habitaram. Os livros estavam encaixotados, sozinhos. Suas paginas deveriam estar já grudadas. A estante, vazia, muda como nunca estivera antes. O armário, caindo com os cupins que a muito tempo já me incomodavam. A junta esquerda da parede com uma pequena rachadura.
Entrei.
As quinas eram familiares, tanto que conseguiria andar ali no escuro, sem esforço, como fazia a noite. Não gostava de acender a luz.
Fazia tempo que ninguém dormia naquela cama. A cama que já presenciou muitas risadas, muitos choros, muitos telefonemas, e até alguns segredos. O colchão nu estava reto, sem indicio de amassados.
Sentei.
Respirei fundo. O cheiro era o mesmo, apesar de toda a velhice do lugar. Um pouco de pinho sol, um pouco de desinfetante e um pouco de mim.
Minha mãe gritou da cozinha que o almoço estava pronto. Fechei a porta e arredei a cama para bloqueá-la, como nos velhos tempos, quando não haviam chaves para os meus segredos, apenas bloqueios psicológicos.
Deitei.
Fechei os olhos.
O lugar estava com vida novamente. A estante limpa, cheia de livros de ficção, coloridos, organizados por tamanhos e coleções. A escrivaninha, cheia de apostilas do cursinho, alguns papéis jogados e muitas canetas de ponta fina rolando. O tapete amarelo meio embolado e o mural com alguns ingressos de cinema, memorandos, o horário da natação e o último exame de sangue, me lembrando que deveria parar de comer carne vermelha. O abajur apontado pra cima. A miniatura do Mike Wazowski me encarava, ao lado da coleção de conchas. A cadeira, ocupada.
Você também estava ali.
A mesma camiseta, o mesmo sorriso, a mesma tatuagem. Estava sentado na cadeira. Nos seus olhos, um convite para um beijo. No toque, desejo subjetivo.
Sorri.
Você me puxa e me coloca no seu colo. Diz que não vai me largar nunca mais. Morde a minha orelha numa tentativa muda de me agradar, e ao mesmo tempo, provocar.
Nós caímos naquele mesmo colchão. Apenas por brincadeira. Apenas para estarmos juntos.
A mesma voz que me chamava agora nos chamou para o almoço.
Me chamou para o almoço.
Irreal.
O quarto apenas me lembrava das fantasias que eu tive ali, não realmente do que aconteceu. Tinha o seu cheiro, o seu sorriso, o seu azul escuro. Por que você estava lá comigo, sem nunca ter estado.
É, estranho não seria se eu não me apaixonasse por você... Estranho seria se eu te esquecesse."
Nenhum comentário:
Postar um comentário