domingo, 19 de dezembro de 2010

Vestido Amarelo

Sinto tanta falta que meu peito engasga. E estou tão cansada de falar de saudade. De falar de tempos que se foram e não voltam mais. Daquela simplicidade.

Sempre pensando que é pra sempre, hoje não quero falar de amor. Quero falar de amizade, que pode até ser amor, mas é superior, é soberano. Na minha vida tive amigos de todas as espécies, etnias, credos e loucuras, mas poucos me fizeram chorar e marcar minhas folhas em branco com lagrimas, como alguns que me lembro agora. Meu olho transborda e minha boca seca de pensar que um dia fui feliz e não sabia.

Aqueles tempos sem preocupação, tempo no qual insisti em voltar e não consegui. Não se pode girar o relógio para a esquerda pensando que o tempo também irá para esse lado. Eu segui em frente sem querer, sem pensar muito que estava seguindo, que estava deixando pra trás.

Eu amei e não sabia.

Deixei de perguntar por vocês e deixei de perguntar por aquela garotinha vestida de amarelo com uma varinha falsa na mão. Deixei aquela infância pra trás por que tinha medo de olhar e sentir falta, olhar e não poder voltar. Tinha medo de olhar e chorar, como choro agora. Sinto falta. Não me culpo inteiramente. 

Todos deixaram pra trás.

Mas mesmo tentando, eu não esqueci.

Quando esse lapso de memória me vem, vem com ele o sorriso. A alegria da Barbie de asas azuis, daquela fita cassete que guarda momentos bobos, e ao mesmo tempo importantes. Vem o sorriso de um violino falsificado e de uma cabeça com gel. O sorriso de cantar no palco do colégio, de rolar as escadas e de botar as mãos no ouvido quando o raio cai.

Nós crescemos. Não sei se isso é bom, se é ruim. Quando era tempo, queria crescer, agora que passou, quero voltar. Crescer não é tão bom quanto parece. Responsabilidade, decisão. Indecisão.

“Mal sabíamos o que viria pela frente.” Não, nunca nos avisaram, e não há como prever. Mas tenho a memória, e, agora que a libertei, talvez ela sirva de história pra ajudar a dormir.
Talvez lembrar seja meu conto de fadas.  História de criança que foi construída com vocês, minhas lembranças. Eu lembro de vocês. Me permito, sinto falta.

Lua

A lua no céu está clara, cheia e imensamente fora do alcance. 
Ela é tão grande que toma conta dos meus pensamentos. 
Ela é tão linda que cobre os meus olhos. 
Ela está tão distante que me lembra você. 

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Tic-tac

Virou a chave duas vezes, e depois se deitou. A porta deveria ficar aberta. A porta sempre deveria ficar aberta. Antes, no primeiro dia sem ele, ela resolvera trocar a fechadura. Ele não deveria entrar nunca mais. Era estúpido, não lhe dava atenção. Talvez nem lhe amasse.
Não demorou duas horas para que se arrependesse. Ela estava confusa, mas sabia que queria que ele entrasse por aquela porta, com a mochila meio rasgada e os cabelos bagunçados. Ela queria que ele entrasse e corresse para beijá-la, e esquecesse a porta escancarada pela pressa do toque.
Ela queria tê-lo de novo, com seus defeitos e pesares.
Então ela levou o colchão pra sala e o colocou de frente pra porta. Já faziam duas semanas que o colchão estava lá. Ela ficava do lado do telefone e conferindo a caixa de correio. Sua única companhia era o cachorro.
Não havia tempo. Dentro daquele apartamento só havia ela, o cachorro, o telefone, o colchão e a espera.
Mas o telefone não tocou. O carteiro passou e não tinha carta. A louça estava suja, a roupa mal lavada. O colchão fora da cama, a pizza em cima da mesinha, estragada. E ela sentada no canto da sala.
Tic-tac, tic-tac, tic-tac.
Ela pôs a roupa na mala, o cachorro na mala, a espera na mala, colou um bilhete na porta, desceu as escadas e olhou mais uma vez para aquele lugar, onde vivera seus melhores e seus piores momentos.
Ele não a procurou mais, e se procurasse não acharia.
Com os pés na areia da praia deserta ela viu que a vida era uma descoberta. Ela havia descoberto o amor, a dor, e a saudade.
Mas isso é só parte. O resto ainda estava nublado.
Ela sentou e resolveu esperar mais um pouco. Esperar pelo sol que iria clarear suas idéias. O cachorro corria e se molhava nas ondas. De vez em quando vinha respingar nela, enquanto tentava lamber seu rosto. Ela nunca mais precisou se sentar para esperar, por que viu que, quando você ama alguém, você AMA O TEMPO TODO, sem tempo para o abandono.
Três semanas depois dela ir embora, ele voltou pra casa. Maltrapilho, bêbado. A porta estava fechada, a fechadura, trocada. Ele bateu na porta e gritou pelo nome dela. Tinha se sentido sufocado pelo seu amor, mas viu que o sufoco era sua vida.
Sem sucesso, voltou à casa da mãe. “ Onde está sua mulher?”
“Ela trocou a fechadura”.
Na mão esquerda estavam as palavras borradas de lágrimas “Se você ama uma pessoa, deixe-a livre e espere. Se ela voltar, é por que é sua. Se não, nunca lhe pertenceu.
Eu sempre gostei de limpeza e por duas semanas não lavei louça, não troquei roupa de cama e dormi no chão da sala esperando por você. Se você está lendo isso, ótimo, você voltou e é meu. Mas você foi pro lixo junto com toda a sujeira que eu resolvi limpar antes de ir embora. Eu faço o que eu quero com o que é meu.”

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Tarde demais

Talvez tenham sido as palavras que eu não disse.  Ou talvez de nada adiantaria, nunca houve tempo e sempre foi tarde demais. Uma história que começa com o “tarde demais” é algo que se deve deixar pra trás. Não vou dar mais nenhum pedaço de mim para alguém que não me deu um fio de cabelo. Você aparece em meus sonhos, todas as noites, e eu não sei não esperar que isso aconteça na vida real. A minha quebra de sentimento, individual, o meu fim, já chegou. Pra mim esse “tarde demais” acabou tarde. Mas acabou.

E isso talvez seja algo realmente bom.

Uma mudança que finalmente chegou. Eu estou cansada. Já faz muito tempo que estou cansada. Pela primeira vez eu estou em meu limite de desistência. E dessa vez, só dessa vez, desistir não é covardia. Desistir nessas condições é apenas bom senso.

Sou uma boa lutadora, mas sei a hora de sair de campo. E vou sair com a cabeça erguida, apesar da alma quebrada.

Sabe, em todo esse tempo, a espera foi o pior parte. A raiva, a dor, a ira, a vergonha, não são nada ao lado da impotência. O fato de ter que me sentar e assistir minha vida passar, por que precisava de você no banco do passageiro para pegar o volante, é ridículo. Poder finalmente deixar isso tudo de lado é um alivio.
Posso estar me enganando, e o sentimento pode voltar. Mas por enquanto estou muito determinada a quebrar esse “tic-tac” de espera e ir em frente.  Determinação me basta.

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Declarações

As pessoas exigem provas de amor todos os dias. Coisas extraordinárias, declarações televisivas, jatos que escrevem nos céus, mil rosas vermelhas. Mas eu não entendo de provas de amor. Eu entendo mesmo é de amor. Aquele sentimento que faz você desobedecer os pais para ficar um pouquinho mais. Que faz você desligar o celular para não ser interrompido enquanto olha aquela pessoa dormir. Aquele amor que faz você sorrir toda vez que uma certa janelinha sobe no MSN, e que faz o coração disparar quando o telefone toca. Aquele amor que cora as bochechas, que ri de tudo, e que quer agradar. Que faz você abrir mão de algumas coisas, que faz pagar mico. Não sei provar meu amor, por que acho que não existe prova de amor maior que simplesmente amar.

Eu te amo. Eu amo o jeito que você olha pra mim quando se irrita, a forma como sua mão roça na minha acidentalmente, provocando um choque que não é elétrico, e nem sei o nome que se dá. Amo quando você chega, amo o jeito que levanta a sobrancelha quando eu falo demais, e como me abraça segurando minhas mãos. Amo o estilo largado que você se veste, o jeito que você leva a vida, a determinação e a persistência, o sarcasmo e o sentimentalismo exagerado. Amo suas opiniões singelas e ofensivas.  Amo o gosto parecido, e até o diferente. Amo cada momento que passamos juntos.

Talvez um dia eu lhe pegue pela mão e suba com você até o céu em um balão colorido. Talvez, quando estivermos lá em cima, você olhe para baixo e veja um “eu te amo” imenso escrito em flores. Ou talvez nós mergulhemos em alguma praia por ai, e eu peça pra um tubarão lhe entregar uma carta (nunca se sabe!). Tirando o absurdo, e coisas que não posso pagar, eu posso lhe dar meu amor. Posso fazer o café da manhã, posso ficar feliz só de ter sua mão na minha. Posso conhecer seus pais e dar comida pro seu gato. Posso ficar mais por você, e posso jogar meu celular pela janela pra te ver dormir. Eu posso sentir sua falta quando você for e enxugar suas lagrimas quando a tristeza for maior. Eu posso arrumar a cama quando você sair, e posso escrever cartas com poeminhas bobos. Posso ver todos os filmes que odeio só para estar ao seu lado, posso deixar de comer comida japonesa aos sábados pra sair com você. Eu posso dar idéia para os seus trabalhos, posso ficar calada quando você precisar se concentrar.  Posso te compreender, posso ser só sua.  Eu posso fazer tantas coisas, e posso fazê-las sem pedir provas do que você sente por mim.

Eu não quero provas de amor. Eu só quero você, sendo só meu.
Isso me bastaria.

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Prece

Só quero me sentar aqui e fazer minhas preces. Em meio a chuva, a enxurrada, a enchente, eu oro. Não sei pra quem o faço, nem por que, mas preciso da resolução de algo mais poderoso que eu para dar rumo na minha vida, por que não sei qual rumo seguir. Cada texto meu parece um desespero maior, e eu os leio, pensando “Quem é está afinal?”
Eu tenho que mudar, tenho que ser feliz e sair do buraco.
Eu juro que estou tentando, mas a lama é escorregadia.

domingo, 5 de dezembro de 2010

Queima de arquivo

Queria poder queimar as cartas que te escrevi. Queimar as promessas.
O que você foi pra mim, além de um correspondente invisível, implacável e insistentemente negativo? Talvez tenha sido meu melhor amigo, e talvez não tenha sido nada. E eu me arrumava pra te encontrar. Nos primeiros dias contornava os olhos, ampliava os cílios, alisava o cabelo. Nos últimos já não fazia nada. Talvez você não merecesse o destaque que meus olhos te davam.
Tentava me esconder entre as pilastras e desviava meus olhos para os livros, quando o que eu mais queria era te ver. Os livros, meus grandes companheiros de calabouço.
Não sei quantas lastimas minhas eles já presenciaram. Cada folha de papel que virei na tentativa de distração. Cada deus no qual procurei ajuda, cada mantra que cantei pra afastar esse espírito agourento que é você na minha vida. Meu pequeno espírito de estimação.
Eu realmente queria poder queimar as cartas, num ritual de passagem, para que você nunca tivesse a remota chance de lê-las. Mas nessa era digital, as cartas não existem, e só existem arquivos de Microsoft Word gravados em pastas com o seu nome. E eu não consigo deletar seu nome do meu HD.
Nem seus olhos dos meus.

sábado, 4 de dezembro de 2010

Três flores, dois pássaros, uma ilusão.

Sentada no escuro cada pequeno barulho é um erro que cometi. Cada movimento, cada resquício de luz. Um erro, mais um. Acho que eu estou enlouquecendo, e não acho ninguém pra me tirar do buraco escuro no qual me coloquei. As palavras jorram, como sempre. Mas sentimentos, sentimentos não existem. São apenas mais palavras. Palavras que eu retirei do meu dicionário.

Enlouquecer não é tão ruim quanto parece. Quando estou nesse estado tudo que sinto é a ira, e minha ira não dói. Coloco uma musica triste. Você a cantava pra mim, naquelas madrugadas de tempo perdido. Ela apenas rege o coral particular que tenho em meu quarto. Todos os meus demônios cantam a solidão, em seu palco de roupas desdobradas e lixo acumulado, enquanto lhes dou o tom. Estou descabelada, enrolada, e não consigo me encolher mais do que já estou encolhida. Quero me proteger do mundo, quando deveria me proteger de mim mesma.

Não sei mais escolher entre azul e rosa. Não consigo decidir que roupa vestir. Estou completamente indecisa, enquanto a cama bloqueia a porta, e a vida fica do lado de fora.

Eu só quero sentir o escuro. Só quero me sentir, pra ver se ainda estou aqui, escondida dentro de mim.
Assim que eu me achar, juro que devolverei as três flores pra ele. Assim resolvo esse meu amor indeciso, e escolho você. As flores não valem o sonho, não valem o beijo ilusório que foi dado no correr da inconsciência.
Escolho você, pois, quando estou lúcida, você aparece algumas vezes. Não tantas quanto eu queria, mas melhor um pássaro visitante do que um pássaro que se perdeu no inverno, e não encontrou a rota do norte. Talvez encontre a mim na decisão.
Ou talvez me perca de uma vez, assim como meu pequeno passarinho.

Talvez, quando eu me afogar nesse mar de mentiras e vaidades no qual me atirei, eu encontre o fim. Ah o fim.
Vou abraçá-lo.
Como nunca abracei ninguém antes.

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Rainha de Copas.

Tenho uma vida dentro de mim e outra fora. Dentro de mim sou dona do mundo, sou a rainha de copas que acaricia um gato invisível. Sou artista, sou cientista, sou poeta, bailarina. Danço valsa com a Fera, faço parte de um show da Broadway, converso com Isaac Newton. Dentro de mim sou mais do que posso, mais do que anseio. Quando estou aqui, sentada no quarto escuro que é minha mente, me surgem as idéias mais brilhantes da minha vida. É dentro de mim que aproveito o tempo, encurralada nesse labirinto de sonhos e pesadelos, presa no calabouço de meu próprio castelo, mas mais livre do que poderia ser fora de minha mente.

Quando estou sozinha posso ser quem eu quero e posso ser quem eu sou. Posso andar nas ruas com meu casaco velho, casaco que cheira a escape de carro, café e tabaco. Leve toque de incenso e cerveja. Posso usar as calças rasgadas, o cabelo bagunçado e os óculos meio tortos. Sozinha não tenho que agradar a ninguém, e é mais fácil ser rainha de mim quando sou a unica a quem tenho que agradar. 

Sabe, talvez eu desenhe um muro no lugar das grades do meu calabouço. Um muro impenetrável, que me impeça de escutar qualquer voz além da minha, me impeça de ver, de sentir e de tocar qualquer coisa fora do quarto escuro. Um muro que me tranque, assim como me isola, para que seja impossível para mim seguir o coelho branco que carrega o relógio. Para que não possa cair no buraco da vida real novamente.

 De forma que eu fique aqui pra sempre, no meu tapete mágico, declamando comédias com Shakespeare. 

Minha vida sem mim.

Eu queria ir embora. Ir embora para um lugar escuro, onde ninguém enxergasse meus defeitos, nem mesmo eu. Queria ir embora para um lugar onde houvesse paz, esperança, e um príncipe montado num cavalo branco, empunhando uma espada para aniquilar meus inimigos. Um lugar onde as folhas fossem mais verdes, o céu mais limpo, e fundo musical de queda d’água. Queria fugir, colocar tudo na mala, deixar o tempo pra trás, e as pessoas, levar só o meu gato.

Queria poder esquecer essas dores de mundo, sobre as quais já escrevi muitas vezes. Queria que o corte parasse de sangrar, e queria que as pessoas parassem de perguntar sobre ele. “Você está bem? Está doendo?”.

Ultimamente ando querendo tantas coisas. Ando querendo costurar meus retalhos, esconder minhas saudade, deixar de imaginar tantas coisas impossíveis. Impossíveis como essa fuga, afinal não se pode fugir de si mesmo. E meu maior pesadelo sou eu. Eu e meu reflexo no espelho. Eu e meu ciúme, minha fadiga, meu stress. Eu e a barra de chocolate. Eu e o corpo que eu não quero, a mente que me incomoda e o espírito que está calado, vendo o resto se destruir.

Mas se eu me esquecer, quem vai lembrar de mim?

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Missing

 Às vezes me dói uma dor de saudade. Saudade de pequenos momentos de clareza. Saudade da paz que trago em algumas de minhas memórias. Sinto saudade de amigos que não sentem minha falta, sinto saudade da época de saúde, de uma juventude que não foi minha, e até de algumas tristezas que valeram a pena.

Sinto falta do pôr do sol no Guaíba, de jogar vôlei com meu pai, de aprender a andar de bicicleta, de andar de pedalinho e de plantar bananeiras na piscina. Tenho saudade de ficar deitada na rede da casa de praia da vó, olhando as pinhas caírem. Sinto saudade de quando dava mau jeito na tal rede, e a gente caia de costas nos montes de pinha. Do cheiro de maresia que só a praia da vovó tinha. Saudade do riso dela. E do sorvete de camadas que ela fazia. Sinto falta de ter medo de ir ao banheiro a noite, e de fazer caretas de monstros picotados nas garrafas pets vazias. Sinto saudade da manhã em que olhei um passarinho cantando na janela e vi que estava em paz, assim como sinto saudade de algumas tempestades.

Sinto falta do Natal em família, onde nem todos cabiam na mesa, e até a cadeira do computador era necessária pra comportar tanta gente. Dos risos altos e de algumas discussões rotineiras. Sinto falta de assistir meu primo andando de skate com seus amigos, tentando pular caixas, assim como sinto falta de conversar com a minha irmã, sem cobrança e sem brigas. Sinto falta de cantar pro meu irmão dormir, do cheiro dele quando era bebê, e de brincar de “Achooou” que nem uma boba. Sinto falta de correr em volta da quadra do colégio enquanto a treinadora apitava. Sinto falta das minhas cadelas, dos periquitos e das tartarugas que já criei.

Sinto falta do Rio Negro.

Sinto saudade de cada um, de cada nó com o qual amarrei meu coração ao de outra pessoa. Sinto falta de amar apenas por amizade, e não pensar em almas gêmeas, nem em qualquer uma dessas besteiras. Sinto falta desse amor sem compromisso, sem exagero. Era amor por amor, coisa fácil de lidar. Sinto falta de não sentir.

E saudade que dói, almeja e faz parte. Faz parte daquele dia em que nos molhamos na chuva, no colégio, por travessura. Faz parte daquele dia em que observei a rua com o meu avô, apenas na luz de um lampião, por que a energia havia acabado. Faz parte de brincar de lego, de caçar girino, de catar amora. Faz parte daquele desejo de ano novo, que deu certo e deu errado. Faz parte do Rio Grande do Sul, de Manaus, de Teresópolis e de tantos outros lugares.

Saudade de mil coisas que fazem parte de mim. Tantas que não sei citar. Saudade que é esquecida, e que às vezes, faz parte de sentir saudade.

Pequenas Coisas

Uma parede pichada, cores sombrias, rua alagada, banco de praça, cachaça, cerveja, rum, banho de chuva, noite de festa, noite. O barulho do skate, os hippies, o cheiro da canela, da hortelã, o chocolate, a coca-cola, o banho de chuva, a chuva, o sol, o calor, a queda d’água. A velha blusa dos Ramones, a calça rasgada, o tombo na multidão, a risada, o choro, o canto, o violão. A cidade, as luzes, a solidão.

O medo de perder, de ganhar. O momento.

O seu cheiro, o toque, o vento.

O seu sorriso, a sua risada. Tudo que é seu, e que eu queria que fosse meu.

A pequena lágrima desajeitada que caiu na página virada de um livro que você abriu mas não leu.

O que eu queria que fosse, mas não é.

A lembrança esquecida de uma cidade que brilha faz de cada individuo um boneco que a vida há de levar em sua chacota de destino.

Uma parede pichada com as pequenas lágrimas.

Três Flores

Sonhei com você, de novo. Uma rotina desencadeada 1095 dias atrás. 26.280 horas da minha vida gastas pensando em como te ganhar e como te esquecer. 1.576.800 segundos de dor.

O tempo. O tempo não cura. O tempo só passa. Passa e forma a enxurrada de lágrimas que leva meu corpo para a tempestade. Passa e me leva com ele. Cada segundo que passa é um segundo que passei sem você. Sem te ver, sem te tocar. Ver já bastava, mas nem isso será possível, agora.

E eles esperam que eu esteja bem. Eles esperam que eu esteja contente. Eles esperam que minha vontade de viver seja maior do que esse desespero interno que só prova minha falta de inteligência. No sonho, você me dava 3 flores. Eu colocava essas flores em uma jarra, e você me beijava.

Ai eu acordei.

Acordei a garota vestida de preto, bêbada e com os pés doendo no final do baile. Acordei a garota que fica encarando o telefone, que fica esperando um email, que fica esperando um sinal. Acordei a garota que sabe cada detalhe da sua vida, que sabe o que você gosta e o que não, o que quer e o que não. Acordei a garota burra.

Acordei mais “Você” e menos “Eu”.

Eu + VOCÊ - 1.576.880 segundos + 3 flores = um beijo.

O sentimento não sabe fazer contas. Eu devia deixá-los de lado e aprender matemática. A lógica não ama.

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Anestesia

A dor daqueles amores nem me atormenta mais
Estou em estado de nostalgia,
Drogada em alucinações.
Eu tomei uma anestesia,
Agora nem sinto mais.

Não sinto mais a dor do relógio com o tempo que passa
Não sinto mais a saudade que aperta o peito.
Não sinto mais o gosto do beijo,
Não sinto mais o prazer da mão que afaga.

Ainda posso ver os olhos,
Teus olhos impressos no reflexo dos meus,
Tua boca na marca da minha fala
Tua respiração guiando a minha pra longe.

Sinto-me sendo levada. A louca de camisa de força,
Prevenção, apesar de anestesiada.
Posso ter um colapso e querer te seguir.
Posso ter um colapso e querer te matar.

A morte que resolveria este meu amor psicopata.
E sinto tuas mãos nas juntas das minhas.
Não posso cair no passado, alguém tem que impedir.
Tratamento de choque pra moça que não sabe mentir.

Mentir que não sente, que esquece e que quer matar,
Quanto mais te amo, mais te odeio.
A cada segundo que amo é um segundo que perco.
A faca é na vertical, corte sem anseio.
Doutor? O senhor consegue ouvir meu apelo?

sábado, 20 de novembro de 2010

Abraço

A grande questão é que eu não deveria me importar.
Mas me importo.
Não deveria me preocupar.
Mas me preocupo.
Não deveria me apaixonar.
Mas sou completa e estupidamente burra.

Tudo bem então.
Tu me avisaste.
Eles me avisaram.
Eu não escutei.
Podem dizer o “eu te avisei”.

Mas a tentação invade minhas veias,
E o teu veneno está debaixo da minha pele.
Queimo viva, incendeio e grito.
Mas é ardente, é o que eu preciso.

Mais uma dose.
Só mais um dose de ti,
E mais outra, e outra.
Eu quero muitas doses.
Overdose.

Talvez eu queira morrer.
Assim, em completa alucinação,
Para ignorar o que viria depois de outra noite,
Outra noite agarrada em teus braços.
Para ignorar as risadas dos que me avisaram.

Boas Vindas




O cheiro de terra molhada invade minhas narinas.
Enquanto afundo meus pés descalços na lama.
Ando no acostamento, com os sons da estrada, sinto o vento,
Arranho meus braços em arbustos floridos.

Uma onda de paz me invade a alma.
Movo meus pés lentamente, esquerdo, direito.
Enquanto a chuva cai, congelante, calma,
E o único outro movimento é o arfar em  meu peito.

Fugindo, finalmente estou seguindo meus próprios passos.
Estou tomando meu rumo, sentindo o peso das minhas escolhas,
Desenhando meus próprios traços.

Talvez fosse melhor se tu estivesses aqui.
Teu polegar traçando círculos em minha mão. 
Teus dedos nos meus.
Mas ao não te ter ao lado meu coração sorri.
É mais doloroso quando não é recíproco.

A minha frente, na estrada, vejo um vulto de capuz,
Capuz negro que tapa o rosto. Um leve sorriso torto.
A risada metálica que me arrepia.
Minha mente diz "Corre!" mas não fujo da Morte.

Ela não me é estranha,
É quase uma velha amiga,
Que sempre vem, visita e nunca fica,
E agora faz sinal pra que eu me aproxime,
E me dá um abraço de boas-vindas.

terça-feira, 16 de novembro de 2010

O Vento

Meus olhos sempre dirão mais do que você quer saber,
E minha língua traça em sua boca os contornos
Das palavras que não sei se quero dizer.
Em sangue escrevo por linhas tortas.
Não será certo, pois prometi não sentir.
Mas prometer isso é uma promessa inimaginável.
Com seu jeito desajeitado, ridículo e amigável.
Agora tenho mais uma divida que não posso cumprir.
Não posso estar me apaixonando por você.
É uma repetição de fatos passados...
Desconexos mas mesmo assim, uns aos outros atados.
É idiotice e é um erro.
Sei que estou me enganando
Mas a mentira monta a verdade aos poucos.
Se é de você que preciso e admito chorando,
É de você que me livro, pois sei que em mim não pensa.

Então não olho nos seus olhos.
Você não vai querer saber o que os meus tem a dizer.
Não vai querer abrir a janela para a ventania que é minha alma,
Vento que carrega meus pecados.

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Picadeiro.

Quando dei por mim estava no picadeiro.
Atração principal de um freak show.
Eu era o palhaço louco vestido de vermelho.
Eu era a lesada que você levou mas não pagou.

A luz dos refletores me feria os olhos.
E as risadas toscas me invadiam os ouvidos.
De minhas lagrimas saiam os arco-iris que enfeitavam o circo.
As paredes eram construídas de sangue e ossos.

Meus demônios me assistiam fascinados.
E meus anjos jaziam mortos aos meus pés.
Eu estava acorrentada aos meus sentimentos.
Eu estava presa a dor de ter acreditado.

Mas as correntes são cortadas quando o circo pega fogo.
E o palhaço se levanta enquanto a platéia grita.
Sou a idiota que por você foi engolida.
Mas também sou a piada que vai destruir seu coração.

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Olhos vendados.

Cansada. Estou muito cansada.
Mas com mais medo, que cansaço.
Medo que corrói as minhas entranhas, e eu
Fico sem saber para onde olhar.

Me diz se vale a pena.
A pena que vou sentir, de mim.
Quando isso acabar.
Como já acabou antes.

Precocemente vejo meus olhos serem vendados.
Amo, amo, amo. Amor que cega.
Não ilumina, não dá rumo.
Tira o rumo tracejado horas antes.

Não vale a pena, pois terá fim.
Não vale a pena. De um lado só, não a vale.
Sou jovem, sou puramente obscena, com hormônios que borbulham.
Com um coração que borbulha.

Mas nada tira a venda.
Nada apaga a memória. Ainda amo.
Sou nova demais pra isso.
Mas ainda amo.

Quero ver novamente.
Quero deixar de amar.
O fim não vale o risco.
O traço que desenhara minha morte.

Ela vem e carrega minha alma.
Por alguém que não me ama.
Fim trágico, shakespeariano.
Quero um copo de alcool puro.

Quero um cigarro, uma alucinação.
Quero apagar, quero esquecer.
Quero um coma.
Como eu quero, como queria. Você de novo. 

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Gatilho

Qual é a dor imposta
Ao pobre e deplorável ser humano...
Que não tem mais palavras pra suporta-la.
Que não tem garra pra suportar os cortes.
Qual é o castigo do ser humano que se deixa sangrar?

Sangra, e sangra em uma jarra.
Guarde esse sangue para que usem em um funeral perverso.
Enterro da mente que tinha pensar.
Guarde essa pobre alma que não tem medo de errar.
Guarde-a para que alguém aprenda com seus erros,
Pois ela não aprendeu.

E a falta de palavras forma a incoerência
Forma a inconseqüência de quem quer se jogar
Na liberdade do ar cortando o rosto na velocidade.
Mesmo sabendo que não pode voar
Ela quer se perder na tormenta e no fogo.

Não há o que fazer agora.
As lágrimas frigidas lhe escorrem a face branca.
Sem alma, sem sangue.
É oca, como um boneca de lata.
E quem lhe fez isso foi o espelho.

Ninguém é responsável pela própria dor.
Ninguém é responsável por puxar o gatilho.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Eu não sei pensar.

Ghandi já disse que toda a vida na terra tem um propósito. A nossa vida tem um significado pra alguém, de alguma forma, em algum lugar. Não quero irritar Ghandi, nem acho que tenha algum tipo de potencial para critica-lo em sua busca por um sentido pra vida. Na verdade, ele disse que não devemos achar um sentido. O sentido apenas existe, e é isso.

Sou um ser humano. Tenho a droga do polegar opositor. Consigo descascar laranjas. Mas não sei qual meu objetivo final, não tenho metas, e as idéias que tive até hoje não foram concluídas. Nunca conclui nada em minha vida, e não sei o que quero. Estou me formando e não tenho um curso superior preferido, não sei se quero inglês, espanhol ou italiano. Não sei nem o que vou querer de almoço.

Logo, não sei pensar.

Quero dizer, eu sei pensar, mas não sei organizar meus pensamentos de forma lógica e coerente. Não sei se isso me faz mais ou menos humana. Todos tem suas dúvidas, no fim.
Alguns pensam que viveram para amar alguém. Outros pensam que estão aqui para arrecadar milhões para suas empresas, e morar numa puta casa, com uns dois iates no porto particular.
E alguns poucos concluíram que a dúvida é o beneficio. O objetivo está lá. É como a religião, ou o mundo das idéias. Nós acreditamos neles, mas nem sempre temos como provar que eles existem.

Eu definitivamente não nasci pra amar alguém. Não sou compreensiva ou altruísta a ponto de viver minha vida pra ter um cafuné antes de dormir. Não é que eu não ame. Amo, mas não sei me entregar. Não sei chegar e dizer "EI, SEU BABACA, eu te amo, tá vendo não?". E, definitivamente, não quero ter iates. Odeio sol, e areia, e gente semi-nua correndo na areia. Eu sou uma pessoa que nasceu pra fazer perguntas estranhas e tomar café. Que nasceu pra acordar tarde e pra ficar olhando a lua a noite. O que você faz com uma pessoa dessas?

Não sei o que vou fazer com a minha duvida. Acho que vou plantar ela no algodão e ver se ela fica grande o bastante. Grande ao ponto de me fazer querer prová-la. E tira-lá.

E descobri-la.


Eu não sei pensar.
Sou tola, sou humana
Sou perversa e sou fraca.

Não sei viver sem estas bases,
Sei viver sem ter você.
Mas não sei viver.

Me apego fácil.
Jogo fora fácil.
Sou supérflua.

Sou puro defeito.
Sou puro encanto.
Sou puro veneno.

Não sei demonstrar,
Mas sei que sinto.
Sinto muito que seja assim.

Sinto muito não ser o bastante,
Não ter tido o instante
Pra te dizer.

Não sou de ninguém,
Sou de todos,
Mas queria que você fosse meu.


Descrição de uma tola que quis correr na chuva.

Eu sai na segunda. Começou a chover. Eu estava meio tensa e fui andar na chuva. Sou tão besta que tropecei num degrau INFELIZ e torci o pé. Torcer o pé faz com que você pense nas coisas. As vezes os motivos pelos quais nós vamos andar na chuva, correr na chuva e tropeçar na chuva, não são motivos o bastante para que você vá parar no hospital na manhã seguinte.
Meus motivos nunca são o bastante. Mas eles me fazem escrever. Escrever é uma forma de libertação. Mesmo que ninguém vá ler. Mesmo que ninguém vá sentir exatamente a mesma coisa que eu estou sentindo. Mesmo que de nada adiante.

É só um blog. É só mais uma pessoa querendo se expressar.
Existem motivos e motivos.

Eu tenho um. A vida tem todos.