terça-feira, 29 de março de 2011

Advogado do diabo

Eu tenho medo. É uma sensação bizarra. Medo do futuro... de não saber o que quero. Agora que o tenho, também tenho o que perder. É a primeira vez que sinto medo de voar, de me jogar. Onde me prenderam?

Tenho medo desse caminho tortuoso que não escolhi mas trilho.

Sem rumo, vou seguindo cada dia numa inércia sem perspectiva, covarde, aos cutucões para seguir em frente. Olho-me no espelho e me pergunto: Quem é você? Onde está a garota de risada alta? Onde está a rainha das respostas inteligentes? Onde estão aqueles olhos brilhantes?

Onde estão as qualidades das quais eu me gabava?

Aqui, nos bastidores do meu palco sem holofotes, vejo que, talvez, os inimigos contra os quais tanto lutei estejam no ultimo andar do pódio, enquanto eu engraxo seus sapatos. Seja um beijo mandado para a viúva, seja um “Eu te amo” dito por quem não merece sofrer.

Me desculpem, mas me sinto presa. Estou atrás das grades, e a força que antes me fazia dobrar ferros está enterrada na lama avermelhada. Acho que minha força está sendo engolida por vermes do meu passado.
Passado que atormenta.

E quando eu acho que me livrei de todos aqueles fantasmas, eles me visitam na prisão, com palavras embrulhadas em papel celofane. “Quer um presente? Tome para si essas minhas memórias de te fazer sofrer.”

Eu preciso encontrar meu caminho, mas o mapa está de cabeça pra baixo.

Preciso deixar este palco, mas como um belo cisne branco, acho que só em outro mundo.

Preciso sair desta prisão, mas me ofereceram o advogado do diabo.


quinta-feira, 17 de março de 2011

Teu esquecimento

Esqueça teus olhos dentro dos meus.
Não posso te pedir pra esquecê-la.
Não posso te pedir pra me dar teu coração.
Aliás, posso até pedir, sabendo a resposta.
Mas esqueça teu olhar, aqui, no meu vidrado.

Esqueça tuas mãos nas minhas,
Pois não quero soltá-las, mesmo nunca as tendo segurado.
Não posso te pedir para que sejamos um.
Aliás, posso até pedir, sabendo a resposta.
Mas esqueça tuas mãos nas minhas, para que me aqueça.

Queria poder te dizer tantas coisas,
Mas teus ouvidos são dela, e teus olhos, e tua boca.
Como posso competir com alguém que te tem todo?
Teu amor, talvez?
Aliás, posso até pedir, mesmo sabendo a resposta.

Mas por favor. Esqueça algo teu comigo.
Nem que seja teu sorriso.
Nem que seja tua memória.
Eu preciso guardar algo teu no meu bolso.
Algo teu, pequenino, não teu coração.

Mas teu.

quarta-feira, 9 de março de 2011

Meio minha

De vez em quando te amar dói. Uma dorzinha de saudade, lá, no fundo do meu peito. Nem foste embora, e já sinto a tua falta. Tu somes, não dá noticia. É estranho como me apeguei fácil, como me grudei em ti tão rapidamente. É quase virulento. Não faz bem.

De vez em quando te amar dói, mas passa, quando olho em teus olhos. Essa dor me faz sentir meio viva.

Só meio.

A outra metade da minha vida está contigo, e já não a sinto mais.

quarta-feira, 2 de março de 2011

Pedaços da alma

O escuro me perturba.
Então é como se tudo que eu precisasse
Estivesse no sutil e perfeito encaixe
Dos seus dedos nos meus.
Mas você se foi,
Como algo que nunca veio,
E passou,
Como a brisa quente da manhã.

O tic-tac explosivo do relógio
Dá o ritmo dos meus gritos por seu nome.
Nada parece ser real.
Talvez nem seja.
Mas é angustiante o que a imaginação pode fazer.

Ela pode fazer você com outra.
Pode fazer você completo sem mim.
Despenco e talho minhas mãos
Nos cacos do chão.
Sobras da alma.

Caio de joelho,
E o sangue escorre quente.
Cheiro de sal e ferrugem.
Me levanto e corro de mim mesma,
Tropeço de novo, e vejo que meus pés estão atados.

Malas

A porta se fechou esperando que alguém entrasse. O telefone está mudo, mas não foi cortado. A moça dorme mas já é dia, a chuva cai na luz do sol. A louça tá suja, a cama, desarrumada. A janela empoeirada, a planta seca e o gato com fome.

O carteiro passou, mas não tem carta. A vida passou, não teve nada.

Poe a roupa na mala. Poe o gato na mala. Poe a chuva na mala. Tá na hora de pegar nesse volante e sumir na estrada. Vida nova pra quem foi esquecida.

Vida nova pra quem quer ser lembrada.

Tic-tac [2]

Ela olhou pela janela. A noite estava limpa, quente. Apoiada nos cotovelos, ela via o tempo passar com as sombras, causadas pelas luzes amarelas. O vento estava ausente, e as estrelas brilhavam como nunca haviam brilhado na cidade grande. Era uma bela noite. Era uma bela espera.

O que ela esperava? Ela esperava que ele voltasse, esperava poder sentir seu cheiro, olhar seus olhos, arrepiar com seu sorriso. Ela esperava o som da risada, o calor do beijo, a sensação de companhia.

Ela não dava importância à espera, pois se ela era necessária, o esperado valia à pena.

Lá de baixo, do canto da rua, ele a observava, meio escondido. Ele aguardava pois sabia que, quanto maior a saudade, melhor seria quando entrasse e a visse ali, o amando e o esperando.

E por que ela ficava linda à luz da lua.