Te dizer que agora nosso caso deixou de ser porta entreaberta e virou porta fechada. Te falar que pensei que te amava, mas amor, amor, é uma coisa tão longínqua da nossa realidade que, agora, é ridículo pensar que um dia achei que sentia isso por ti. Nosso caso não teve bandeira amarela de Para Sempre no porto, nosso caso não teve beijo na chuva, nosso caso não teve exclusividade, nem cavalo branco, nem palavras Piegas. Nosso caso foi algo material, nas tuas palavras, regado a uns poucos olhares maliciosos e uma bela e exponencial mentira. Paixão, se tu achas que me terá mais uma vez, é engano teu. Quero alguém pra deitar no colo, pra chamar de Amor, pra me dar atenção, sem desviar os olhos pra televisão. Se me teve? Talvez cada partícula do meu corpo estivesse involuntariamente atraída pelo teu. Em mente, em coração. Mas sabe, espírito nunca foi o nosso forte. Principalmente o teu. Eu realmente acho, e não é pretensão, que um dia vai sentir minha falta. Essa falta que sentimos em dias de chuva, quando a lareira teima em não queimar, e o vento ruge na janela. Acho que vai sentir minha falta naquelas tuas noites regadas a um bom vinho e a um romance de terror, por que sabe que nós poderíamos estar deitados no tapete da sala, olhando pro teto de tijolos e pensando no futuro que nos aguardava, juntos, ao invés de estar preso nessa tua solidão introspectiva dentro do teu quarto. Sabe que poderíamos estar rindo e dançando alguma comédia do Los Hermanos, tirando onda de um “Cara estranho” que nós não conhecemos, mas ouvimos falar. Tu sabes que, querendo ou não, mesmo que não se arrependa da escolha que fez, algumas dessas imagens vão te atormentar a mente durante a tranqüilidade do almoço, daqui a uns meses.
Eu nunca te amei, apesar de ter dito, em algumas mil cartas no meu HD, que te amava sem pensar em mais nada. Amor é tão complexo, mas diz que só se ama uma vez na vida, e se é assim mesmo, não vou permitir que sejas a única pessoa que teve meu coração. Eu te gosto, gosto do teu sorriso, gosto da tua lábia, da tua piada, da tua malicia... gosto de tanta coisa em ti que até me arrepio em pensar que tudo que passamos foi um mero desentendimento. Mas passamos, não passamos? Acho que daqui a alguns anos, andando pela Redenção no frio do inverno gaucho, com uma cuia de chimarrão numa mão, e uma garrafa térmica na outra, vou me lembrar da nossa história e rir um pouco mais de mim mesma. Dessa coisa de “A Outra”, dessa coisa de declaração. Quer saber uma coisa curiosa sobre mim? Adoro uma declaração de amor. Acho que é por isso que sempre acho que amo e não amo. Adoro dizer pros outros o quanto me importo, o quanto quero e o quanto faria para ter o amor que podem me dar na minha mão. Gosto de flores, de sacadas, de serenatas, de balões sobrevoando Paris a luz da lua. Gosto do romantismo exacerbado que foi esquecido pela nossa geração. Sou meio anos 20, entende? Carta, olhar, choque elétrico mortal com toques inesperados.
Sabe de outra coisa? Acho que gosto de sofrer. Por que é habitual, sabe? Estou tão acostumada que tenho medo de não sofrer mais, afinal, o que vai ser do meu vazio sem um sofrimento pra preencher minhas noites de silêncio com alguns soluços?
No fim, paixão, acho que não procurei em ti amor, mas sim sofrimento, uma coisa meio Zelda Fitzgerald, mas sem o manicômio no final. Pelo menos assim espero. Voilà, meu bem. Minha vida continuou.
Vou achar um amor pra erguer a bandeira amarela da quarentena, pra beijar na chuva, pra olhar o nascer do sol de um lugar distante, pra voar num balão em Paris. Vou procurar um amor que seja tão grande que vá ocupar o espaço que reservei em minha alma para sofrer. Tão grande que vai ser maior que tu, eu, e a estupidez que fizemos juntos. Um amor que vai me fazer estupidamente feliz. E se não achar, vou ser estupidamente feliz. Comigo mesma.
Essa foi minha última carta, em nome do meu desamor. Ridícula, é claro. Mas libertadora.
“Todas as cartas de amor são
Ridículas.
Não seriam cartas de amor se não fossem
Ridículas”.
Fernando Pessoa
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