Ela abriu os olhos pela manhã, esperando que aquele dia demorasse um pouco mais para começar. Mas ele veio à tona, quando o sono foi embora. Olhou para o lado, mas ali só havia a alma dele, e não seu corpo, dentro de um ronco leve. Se levantou e caminhou lentamente até o banheiro. A boca ainda tinha o gosto dela, e o corpo, as marcas dela, e a mente, o rosto. Vestiu a camisa masculina que estava pendurada no banheiro, e ela lhe caiu grande, como um vestido. Como uma manhã pós-sexo. Lavou o rosto, deixando a água pingar nos cabelos descoloridos e na roupa ultrajante. Molhou o tapete. A noite anterior lhe atormentava. Caminhou até a cozinha e encheu uma xícara de café, sem açúcar e com dois pingados de whisky, levando-a para a sacada e acendendo um cigarro. A manhã estava suja de neblina, e a pequena cidade de tijolos parecia uma cidade fantasma. O jornaleiro passava, como nos anos 50, deixando o jornal com cheiro de novo no solado das portas, enquanto apitava aquele apito sem timbre, sem comoção. Uma garota passeava com o cachorro lá embaixo. Ela fechou os olhos.
Beijo, gosto, suor. Sem respirar. Lembrava da noite anterior como lembrava dos traços que se inclinavam no rosto dela. A mecha azul cacheada saindo dos cabelos pretos como petróleo, roçando lentamente no seu rosto, num simples afago. O sussurro, o gemido, a loucura da dúvida. Quem queria o que? Quem não queria? Quem ela queria? A pequena garota dos cabelos azuis ou o homem que, por tantas noites, a acompanhou? Se a garota não queria, então o que queria? Qual foi a motivação para o momento de loucura imposta as duas na noite anterior? E ele, onde estaria, além de morto em sua cama, e vivo na cama daquela que não lhe dá valor?
Ela teve vontade de pegar o telefone e ligar para acordá-la, mas o relógio avisava que, naquela hora, só haviam 3 pessoas acordadas na cidade. Ela, o jornaleiro e a garota do cachorro. Queria acordá-la cantando, dizendo que sentia falta do toque, mas que não sabia o que ele significava. Queria perguntar o que ela queria, pra saber se as coisas estavam mutuas ou desregradas. Queria colocar o celular no viva-voz e tirar o timbre do violão, pra colocá-lo dentro da outra, que ainda sonolenta, ia rir do romantismo exacerbado. A única romântica acordada, só por uma manhã fria, só por uma ilusão.
Por que quando a linha fosse cortada, ela ia caminhar até o quarto, abraçar seu fantasma e tentar dormir de novo, para que mais tarde naquela manhã tudo fosse esquecido, e a garota de cabelo azul fosse só a ponta da folha de um sonho que ela não continuou a ler.
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