domingo, 5 de dezembro de 2010

Queima de arquivo

Queria poder queimar as cartas que te escrevi. Queimar as promessas.
O que você foi pra mim, além de um correspondente invisível, implacável e insistentemente negativo? Talvez tenha sido meu melhor amigo, e talvez não tenha sido nada. E eu me arrumava pra te encontrar. Nos primeiros dias contornava os olhos, ampliava os cílios, alisava o cabelo. Nos últimos já não fazia nada. Talvez você não merecesse o destaque que meus olhos te davam.
Tentava me esconder entre as pilastras e desviava meus olhos para os livros, quando o que eu mais queria era te ver. Os livros, meus grandes companheiros de calabouço.
Não sei quantas lastimas minhas eles já presenciaram. Cada folha de papel que virei na tentativa de distração. Cada deus no qual procurei ajuda, cada mantra que cantei pra afastar esse espírito agourento que é você na minha vida. Meu pequeno espírito de estimação.
Eu realmente queria poder queimar as cartas, num ritual de passagem, para que você nunca tivesse a remota chance de lê-las. Mas nessa era digital, as cartas não existem, e só existem arquivos de Microsoft Word gravados em pastas com o seu nome. E eu não consigo deletar seu nome do meu HD.
Nem seus olhos dos meus.

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