Virou a chave duas vezes, e depois se deitou. A porta deveria ficar aberta. A porta sempre deveria ficar aberta. Antes, no primeiro dia sem ele, ela resolvera trocar a fechadura. Ele não deveria entrar nunca mais. Era estúpido, não lhe dava atenção. Talvez nem lhe amasse.
Não demorou duas horas para que se arrependesse. Ela estava confusa, mas sabia que queria que ele entrasse por aquela porta, com a mochila meio rasgada e os cabelos bagunçados. Ela queria que ele entrasse e corresse para beijá-la, e esquecesse a porta escancarada pela pressa do toque.
Ela queria tê-lo de novo, com seus defeitos e pesares.
Então ela levou o colchão pra sala e o colocou de frente pra porta. Já faziam duas semanas que o colchão estava lá. Ela ficava do lado do telefone e conferindo a caixa de correio. Sua única companhia era o cachorro.
Não havia tempo. Dentro daquele apartamento só havia ela, o cachorro, o telefone, o colchão e a espera.
Mas o telefone não tocou. O carteiro passou e não tinha carta. A louça estava suja, a roupa mal lavada. O colchão fora da cama, a pizza em cima da mesinha, estragada. E ela sentada no canto da sala.
Tic-tac, tic-tac, tic-tac.
Ela pôs a roupa na mala, o cachorro na mala, a espera na mala, colou um bilhete na porta, desceu as escadas e olhou mais uma vez para aquele lugar, onde vivera seus melhores e seus piores momentos.
Ele não a procurou mais, e se procurasse não acharia.
Com os pés na areia da praia deserta ela viu que a vida era uma descoberta. Ela havia descoberto o amor, a dor, e a saudade.
Mas isso é só parte. O resto ainda estava nublado.
Ela sentou e resolveu esperar mais um pouco. Esperar pelo sol que iria clarear suas idéias. O cachorro corria e se molhava nas ondas. De vez em quando vinha respingar nela, enquanto tentava lamber seu rosto. Ela nunca mais precisou se sentar para esperar, por que viu que, quando você ama alguém, você AMA O TEMPO TODO, sem tempo para o abandono.
Três semanas depois dela ir embora, ele voltou pra casa. Maltrapilho, bêbado. A porta estava fechada, a fechadura, trocada. Ele bateu na porta e gritou pelo nome dela. Tinha se sentido sufocado pelo seu amor, mas viu que o sufoco era sua vida.
Sem sucesso, voltou à casa da mãe. “ Onde está sua mulher?”
“Ela trocou a fechadura”.
Na mão esquerda estavam as palavras borradas de lágrimas “Se você ama uma pessoa, deixe-a livre e espere. Se ela voltar, é por que é sua. Se não, nunca lhe pertenceu.
Eu sempre gostei de limpeza e por duas semanas não lavei louça, não troquei roupa de cama e dormi no chão da sala esperando por você. Se você está lendo isso, ótimo, você voltou e é meu. Mas você foi pro lixo junto com toda a sujeira que eu resolvi limpar antes de ir embora. Eu faço o que eu quero com o que é meu.”
o.O foda... nao tenho nem o q dizer.
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