Tenho uma vida dentro de mim e outra fora. Dentro de mim sou dona do mundo, sou a rainha de copas que acaricia um gato invisível. Sou artista, sou cientista, sou poeta, bailarina. Danço valsa com a Fera, faço parte de um show da Broadway, converso com Isaac Newton. Dentro de mim sou mais do que posso, mais do que anseio. Quando estou aqui, sentada no quarto escuro que é minha mente, me surgem as idéias mais brilhantes da minha vida. É dentro de mim que aproveito o tempo, encurralada nesse labirinto de sonhos e pesadelos, presa no calabouço de meu próprio castelo, mas mais livre do que poderia ser fora de minha mente.
Quando estou sozinha posso ser quem eu quero e posso ser quem eu sou. Posso andar nas ruas com meu casaco velho, casaco que cheira a escape de carro, café e tabaco. Leve toque de incenso e cerveja. Posso usar as calças rasgadas, o cabelo bagunçado e os óculos meio tortos. Sozinha não tenho que agradar a ninguém, e é mais fácil ser rainha de mim quando sou a unica a quem tenho que agradar.
Sabe, talvez eu desenhe um muro no lugar das grades do meu calabouço. Um muro impenetrável, que me impeça de escutar qualquer voz além da minha, me impeça de ver, de sentir e de tocar qualquer coisa fora do quarto escuro. Um muro que me tranque, assim como me isola, para que seja impossível para mim seguir o coelho branco que carrega o relógio. Para que não possa cair no buraco da vida real novamente.
De forma que eu fique aqui pra sempre, no meu tapete mágico, declamando comédias com Shakespeare.
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