quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Missing

 Às vezes me dói uma dor de saudade. Saudade de pequenos momentos de clareza. Saudade da paz que trago em algumas de minhas memórias. Sinto saudade de amigos que não sentem minha falta, sinto saudade da época de saúde, de uma juventude que não foi minha, e até de algumas tristezas que valeram a pena.

Sinto falta do pôr do sol no Guaíba, de jogar vôlei com meu pai, de aprender a andar de bicicleta, de andar de pedalinho e de plantar bananeiras na piscina. Tenho saudade de ficar deitada na rede da casa de praia da vó, olhando as pinhas caírem. Sinto saudade de quando dava mau jeito na tal rede, e a gente caia de costas nos montes de pinha. Do cheiro de maresia que só a praia da vovó tinha. Saudade do riso dela. E do sorvete de camadas que ela fazia. Sinto falta de ter medo de ir ao banheiro a noite, e de fazer caretas de monstros picotados nas garrafas pets vazias. Sinto saudade da manhã em que olhei um passarinho cantando na janela e vi que estava em paz, assim como sinto saudade de algumas tempestades.

Sinto falta do Natal em família, onde nem todos cabiam na mesa, e até a cadeira do computador era necessária pra comportar tanta gente. Dos risos altos e de algumas discussões rotineiras. Sinto falta de assistir meu primo andando de skate com seus amigos, tentando pular caixas, assim como sinto falta de conversar com a minha irmã, sem cobrança e sem brigas. Sinto falta de cantar pro meu irmão dormir, do cheiro dele quando era bebê, e de brincar de “Achooou” que nem uma boba. Sinto falta de correr em volta da quadra do colégio enquanto a treinadora apitava. Sinto falta das minhas cadelas, dos periquitos e das tartarugas que já criei.

Sinto falta do Rio Negro.

Sinto saudade de cada um, de cada nó com o qual amarrei meu coração ao de outra pessoa. Sinto falta de amar apenas por amizade, e não pensar em almas gêmeas, nem em qualquer uma dessas besteiras. Sinto falta desse amor sem compromisso, sem exagero. Era amor por amor, coisa fácil de lidar. Sinto falta de não sentir.

E saudade que dói, almeja e faz parte. Faz parte daquele dia em que nos molhamos na chuva, no colégio, por travessura. Faz parte daquele dia em que observei a rua com o meu avô, apenas na luz de um lampião, por que a energia havia acabado. Faz parte de brincar de lego, de caçar girino, de catar amora. Faz parte daquele desejo de ano novo, que deu certo e deu errado. Faz parte do Rio Grande do Sul, de Manaus, de Teresópolis e de tantos outros lugares.

Saudade de mil coisas que fazem parte de mim. Tantas que não sei citar. Saudade que é esquecida, e que às vezes, faz parte de sentir saudade.

3 comentários:

  1. Este comentário foi removido pelo autor.

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  2. Sim, sinto saudades da época em que éramos crianças e que jurávamos ser adultas - mal sabíamos o que viria pela frente... Hoje é uma lembrança, mas não somente uma lembrança, é uma parte da minha vida que ficou, congelou, e então a passagem do tempo fez seu trabalho, e o resto todo mudou. Saudades, Gabriela, Porto Alegre.

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