domingo, 19 de dezembro de 2010

Vestido Amarelo

Sinto tanta falta que meu peito engasga. E estou tão cansada de falar de saudade. De falar de tempos que se foram e não voltam mais. Daquela simplicidade.

Sempre pensando que é pra sempre, hoje não quero falar de amor. Quero falar de amizade, que pode até ser amor, mas é superior, é soberano. Na minha vida tive amigos de todas as espécies, etnias, credos e loucuras, mas poucos me fizeram chorar e marcar minhas folhas em branco com lagrimas, como alguns que me lembro agora. Meu olho transborda e minha boca seca de pensar que um dia fui feliz e não sabia.

Aqueles tempos sem preocupação, tempo no qual insisti em voltar e não consegui. Não se pode girar o relógio para a esquerda pensando que o tempo também irá para esse lado. Eu segui em frente sem querer, sem pensar muito que estava seguindo, que estava deixando pra trás.

Eu amei e não sabia.

Deixei de perguntar por vocês e deixei de perguntar por aquela garotinha vestida de amarelo com uma varinha falsa na mão. Deixei aquela infância pra trás por que tinha medo de olhar e sentir falta, olhar e não poder voltar. Tinha medo de olhar e chorar, como choro agora. Sinto falta. Não me culpo inteiramente. 

Todos deixaram pra trás.

Mas mesmo tentando, eu não esqueci.

Quando esse lapso de memória me vem, vem com ele o sorriso. A alegria da Barbie de asas azuis, daquela fita cassete que guarda momentos bobos, e ao mesmo tempo importantes. Vem o sorriso de um violino falsificado e de uma cabeça com gel. O sorriso de cantar no palco do colégio, de rolar as escadas e de botar as mãos no ouvido quando o raio cai.

Nós crescemos. Não sei se isso é bom, se é ruim. Quando era tempo, queria crescer, agora que passou, quero voltar. Crescer não é tão bom quanto parece. Responsabilidade, decisão. Indecisão.

“Mal sabíamos o que viria pela frente.” Não, nunca nos avisaram, e não há como prever. Mas tenho a memória, e, agora que a libertei, talvez ela sirva de história pra ajudar a dormir.
Talvez lembrar seja meu conto de fadas.  História de criança que foi construída com vocês, minhas lembranças. Eu lembro de vocês. Me permito, sinto falta.

Lua

A lua no céu está clara, cheia e imensamente fora do alcance. 
Ela é tão grande que toma conta dos meus pensamentos. 
Ela é tão linda que cobre os meus olhos. 
Ela está tão distante que me lembra você. 

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Tic-tac

Virou a chave duas vezes, e depois se deitou. A porta deveria ficar aberta. A porta sempre deveria ficar aberta. Antes, no primeiro dia sem ele, ela resolvera trocar a fechadura. Ele não deveria entrar nunca mais. Era estúpido, não lhe dava atenção. Talvez nem lhe amasse.
Não demorou duas horas para que se arrependesse. Ela estava confusa, mas sabia que queria que ele entrasse por aquela porta, com a mochila meio rasgada e os cabelos bagunçados. Ela queria que ele entrasse e corresse para beijá-la, e esquecesse a porta escancarada pela pressa do toque.
Ela queria tê-lo de novo, com seus defeitos e pesares.
Então ela levou o colchão pra sala e o colocou de frente pra porta. Já faziam duas semanas que o colchão estava lá. Ela ficava do lado do telefone e conferindo a caixa de correio. Sua única companhia era o cachorro.
Não havia tempo. Dentro daquele apartamento só havia ela, o cachorro, o telefone, o colchão e a espera.
Mas o telefone não tocou. O carteiro passou e não tinha carta. A louça estava suja, a roupa mal lavada. O colchão fora da cama, a pizza em cima da mesinha, estragada. E ela sentada no canto da sala.
Tic-tac, tic-tac, tic-tac.
Ela pôs a roupa na mala, o cachorro na mala, a espera na mala, colou um bilhete na porta, desceu as escadas e olhou mais uma vez para aquele lugar, onde vivera seus melhores e seus piores momentos.
Ele não a procurou mais, e se procurasse não acharia.
Com os pés na areia da praia deserta ela viu que a vida era uma descoberta. Ela havia descoberto o amor, a dor, e a saudade.
Mas isso é só parte. O resto ainda estava nublado.
Ela sentou e resolveu esperar mais um pouco. Esperar pelo sol que iria clarear suas idéias. O cachorro corria e se molhava nas ondas. De vez em quando vinha respingar nela, enquanto tentava lamber seu rosto. Ela nunca mais precisou se sentar para esperar, por que viu que, quando você ama alguém, você AMA O TEMPO TODO, sem tempo para o abandono.
Três semanas depois dela ir embora, ele voltou pra casa. Maltrapilho, bêbado. A porta estava fechada, a fechadura, trocada. Ele bateu na porta e gritou pelo nome dela. Tinha se sentido sufocado pelo seu amor, mas viu que o sufoco era sua vida.
Sem sucesso, voltou à casa da mãe. “ Onde está sua mulher?”
“Ela trocou a fechadura”.
Na mão esquerda estavam as palavras borradas de lágrimas “Se você ama uma pessoa, deixe-a livre e espere. Se ela voltar, é por que é sua. Se não, nunca lhe pertenceu.
Eu sempre gostei de limpeza e por duas semanas não lavei louça, não troquei roupa de cama e dormi no chão da sala esperando por você. Se você está lendo isso, ótimo, você voltou e é meu. Mas você foi pro lixo junto com toda a sujeira que eu resolvi limpar antes de ir embora. Eu faço o que eu quero com o que é meu.”

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Tarde demais

Talvez tenham sido as palavras que eu não disse.  Ou talvez de nada adiantaria, nunca houve tempo e sempre foi tarde demais. Uma história que começa com o “tarde demais” é algo que se deve deixar pra trás. Não vou dar mais nenhum pedaço de mim para alguém que não me deu um fio de cabelo. Você aparece em meus sonhos, todas as noites, e eu não sei não esperar que isso aconteça na vida real. A minha quebra de sentimento, individual, o meu fim, já chegou. Pra mim esse “tarde demais” acabou tarde. Mas acabou.

E isso talvez seja algo realmente bom.

Uma mudança que finalmente chegou. Eu estou cansada. Já faz muito tempo que estou cansada. Pela primeira vez eu estou em meu limite de desistência. E dessa vez, só dessa vez, desistir não é covardia. Desistir nessas condições é apenas bom senso.

Sou uma boa lutadora, mas sei a hora de sair de campo. E vou sair com a cabeça erguida, apesar da alma quebrada.

Sabe, em todo esse tempo, a espera foi o pior parte. A raiva, a dor, a ira, a vergonha, não são nada ao lado da impotência. O fato de ter que me sentar e assistir minha vida passar, por que precisava de você no banco do passageiro para pegar o volante, é ridículo. Poder finalmente deixar isso tudo de lado é um alivio.
Posso estar me enganando, e o sentimento pode voltar. Mas por enquanto estou muito determinada a quebrar esse “tic-tac” de espera e ir em frente.  Determinação me basta.

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Declarações

As pessoas exigem provas de amor todos os dias. Coisas extraordinárias, declarações televisivas, jatos que escrevem nos céus, mil rosas vermelhas. Mas eu não entendo de provas de amor. Eu entendo mesmo é de amor. Aquele sentimento que faz você desobedecer os pais para ficar um pouquinho mais. Que faz você desligar o celular para não ser interrompido enquanto olha aquela pessoa dormir. Aquele amor que faz você sorrir toda vez que uma certa janelinha sobe no MSN, e que faz o coração disparar quando o telefone toca. Aquele amor que cora as bochechas, que ri de tudo, e que quer agradar. Que faz você abrir mão de algumas coisas, que faz pagar mico. Não sei provar meu amor, por que acho que não existe prova de amor maior que simplesmente amar.

Eu te amo. Eu amo o jeito que você olha pra mim quando se irrita, a forma como sua mão roça na minha acidentalmente, provocando um choque que não é elétrico, e nem sei o nome que se dá. Amo quando você chega, amo o jeito que levanta a sobrancelha quando eu falo demais, e como me abraça segurando minhas mãos. Amo o estilo largado que você se veste, o jeito que você leva a vida, a determinação e a persistência, o sarcasmo e o sentimentalismo exagerado. Amo suas opiniões singelas e ofensivas.  Amo o gosto parecido, e até o diferente. Amo cada momento que passamos juntos.

Talvez um dia eu lhe pegue pela mão e suba com você até o céu em um balão colorido. Talvez, quando estivermos lá em cima, você olhe para baixo e veja um “eu te amo” imenso escrito em flores. Ou talvez nós mergulhemos em alguma praia por ai, e eu peça pra um tubarão lhe entregar uma carta (nunca se sabe!). Tirando o absurdo, e coisas que não posso pagar, eu posso lhe dar meu amor. Posso fazer o café da manhã, posso ficar feliz só de ter sua mão na minha. Posso conhecer seus pais e dar comida pro seu gato. Posso ficar mais por você, e posso jogar meu celular pela janela pra te ver dormir. Eu posso sentir sua falta quando você for e enxugar suas lagrimas quando a tristeza for maior. Eu posso arrumar a cama quando você sair, e posso escrever cartas com poeminhas bobos. Posso ver todos os filmes que odeio só para estar ao seu lado, posso deixar de comer comida japonesa aos sábados pra sair com você. Eu posso dar idéia para os seus trabalhos, posso ficar calada quando você precisar se concentrar.  Posso te compreender, posso ser só sua.  Eu posso fazer tantas coisas, e posso fazê-las sem pedir provas do que você sente por mim.

Eu não quero provas de amor. Eu só quero você, sendo só meu.
Isso me bastaria.

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Prece

Só quero me sentar aqui e fazer minhas preces. Em meio a chuva, a enxurrada, a enchente, eu oro. Não sei pra quem o faço, nem por que, mas preciso da resolução de algo mais poderoso que eu para dar rumo na minha vida, por que não sei qual rumo seguir. Cada texto meu parece um desespero maior, e eu os leio, pensando “Quem é está afinal?”
Eu tenho que mudar, tenho que ser feliz e sair do buraco.
Eu juro que estou tentando, mas a lama é escorregadia.

domingo, 5 de dezembro de 2010

Queima de arquivo

Queria poder queimar as cartas que te escrevi. Queimar as promessas.
O que você foi pra mim, além de um correspondente invisível, implacável e insistentemente negativo? Talvez tenha sido meu melhor amigo, e talvez não tenha sido nada. E eu me arrumava pra te encontrar. Nos primeiros dias contornava os olhos, ampliava os cílios, alisava o cabelo. Nos últimos já não fazia nada. Talvez você não merecesse o destaque que meus olhos te davam.
Tentava me esconder entre as pilastras e desviava meus olhos para os livros, quando o que eu mais queria era te ver. Os livros, meus grandes companheiros de calabouço.
Não sei quantas lastimas minhas eles já presenciaram. Cada folha de papel que virei na tentativa de distração. Cada deus no qual procurei ajuda, cada mantra que cantei pra afastar esse espírito agourento que é você na minha vida. Meu pequeno espírito de estimação.
Eu realmente queria poder queimar as cartas, num ritual de passagem, para que você nunca tivesse a remota chance de lê-las. Mas nessa era digital, as cartas não existem, e só existem arquivos de Microsoft Word gravados em pastas com o seu nome. E eu não consigo deletar seu nome do meu HD.
Nem seus olhos dos meus.